Resumo
Em tempos de crise econômica, é normal que o índice de crimes em uma sociedade aumente — e esse aumento não se limita apenas a delitos que envolvem violência ou grave ameaça. Em situações adversas, pessoas de má índole enxergam oportunidades para cometer estelionato, especialmente visando vítimas em situação de vulnerabilidade. Os mecanismos usados são diversos — e quem está atravessando um momento difícil pode, à primeira vista, aceitar promessas ilusórias como um caminho rápido para a virada de chave, sem precisar se reorganizar, trabalhar ou melhorar sua qualificação — tudo isso leva tempo.
É nesse contexto que analisamos o uso da internet por golpistas, cuja atividade tem se tornado mais tolerada; alguns chegam inclusive a admirar esses “messiânicos” coaches digitais como se fossem lideranças religiosas, ao prometem soluções milagrosas para problemas cotidianos complexos. As promessas vão desde oferta de emprego, passando por aumento de clientes nos negócios, até lucros de seis dígitos em poucos meses.
1. Nichos mais propensos a aplicação de golpes
No marketing digital, as promessas não envolvem experiência, trabalho contínuo, esforço ou qualificação; tudo é apresentado como um suposto segredo desconhecido, revelado apenas após a compra do infoproduto. Veja abaixo alguns nichos que você, leitor, provavelmente já viu aparecer enquanto rolava o feed da rede social:
Finanças e Investimentos
● “Fique milionário em 6 meses”, “ganhe R$ 10 mil por mês sem esforço”.
● Promessas de alta rentabilidade com criptomoedas, day trade ou marketing multinível disfarçado de coaching.
● Golpes comuns: cursos caríssimos com “provas sociais” falsas, pirâmides financeiras disfarçadas de mentoria.
Negócios Digitais / Empreendedorismo Online
● “Seja seu próprio chefe”, “lucre dormindo”, “ganhe 7 dígitos em 30 dias”.
● Golpes: coaches que nunca tiveram um negócio de verdade vendendo “métodos infalíveis”; esquemas replicáveis de copy, prometendo enriquecimento rápido. Esses coaches ficam ricos fazendo com que as pessoas acreditem que eles ficaram ricos com o método — e essa lógica se espalha: muitos não prosperam apenas porque não estão “fazendo o mesmo”.
Relacionamentos / Sedução
● “Reconquiste seu ex em 7 dias”, “conquiste qualquer mulher/homem”.
● Manipulação emocional, promessas impossíveis de cumprir; frequentemente, gatilhos psicológicos são usados para explorar vulnerabilidades.
Alta Performance / Desenvolvimento Pessoal
● “Segredo da mente milionária”, “desbloqueie 100 % do seu potencial oculto”.
● Golpes: métodos pseudocientíficos (sem comprovação), certificados falsos ou coaches sem formação real vendendo “cura” para depressão ou ansiedade — áreas que são de competência da psicologia ou psiquiatria, não do coaching.
1.1 No Brasil o mercado só cresce!
O maior vendedor global de cursos online da plataforma Hotmart — muito popular no Brasil — comercializa treinamentos sobre inteligência emocional, finanças e estilo de vida, justamente temas que atingem dores profundas da existência humana. Esse coach tem mais de dez milhões de seguidores nas redes sociais e lucrou mais de R$ 250 milhões apenas com a venda desses treinamentos.
1.2 Tráfego pago e Big Techs
Todos esses coaches e gurus que vemos com frequência nas redes sociais investem pesadamente em tráfego pago. Esse mecanismo se aproveita das informações que somos obrigados a compartilhar ao utilizar serviços como Instagram, Facebook e TikTok. Não se trata de fazer juízo moral sobre as Big Techs, mas sim de questionar o real retorno desses cursos e quantas pessoas efetivamente obtêm sucesso. Um usuário comum com duzentos dólares para investir em tráfego pago não recebe o mesmo tratamento que coaches que aplicam milhares — e por isso, são prioritários nas plataformas.
1.3 O que apostas esportivas e cassinos online podem nos ensinar sobre esse mercado
Você já viu o dono de uma plataforma de apostas ou cassino online criar perfil próprio nas redes sociais para divulgá-la? Raramente. A estratégia é pagar influenciadores com seguidores para fazer essa divulgação em seu lugar, ao invés de investir diretamente em tráfego pago como os coaches fazem. O mercado de coaching é milionário e já possui players consolidados que dominam o tráfego pago, vendendo soluções “fáceis”, “mágicas” e “práticas” para o aumento de lucros.
Fonte: https://exame.com/bussola/brasileiro-fatura-r-250-milhoes-em-plataforma-on-line-de-cursos-2/
2. A normalização de um crime
O mercado de cursos online cresceu vertiginosamente durante a pandemia. Plataformas como Hotmart e Eduzz raramente divulgam se os treinamentos realmente resultam em sucesso dos alunos. A publicidade de produtos e serviços deve ser clara, objetiva e acessível, com linguagem que permita ao consumidor entender o que está adquirindo. Veicular anúncios ambíguos, omissos ou de difícil compreensão constitui publicidade enganosa ou abusiva, conforme o artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
Induzir o consumidor a pagar por um curso com promessa de contratação futura, sem a devida realização, além de antiético, pode configurar crime de estelionato, conforme o artigo 171 do Código Penal. Além disso, quando a compra de um treinamento é atrelada à contratação de uma plataforma de tráfego pago, pode configurar prática abusiva, nos termos dos artigos 6º e 39 do CDC, e ainda ser considerada venda casada, dependendo das circunstâncias concretas.
Fica a pergunta, leitor: você conhece alguém que tenha comprado um curso online prometendo "como ganhar dinheiro" e realmente ganhou dinheiro com ele? Muitas vítimas de estelionato se sentem envergonhadas por terem caído no golpe ou acreditam que falharam por responsabilidade própria. A realidade, porém, é que esse mercado cresce rapidamente — e nem o Procon nem o Ministério Público têm detectado com eficácia essas fraudes, que acontecem 24 horas por dia, contra consumidores em vulnerabilidade.
Crimes no Brasil que vieram à tona
3.1 Operações da Polícia Federal contra esquemas de pirâmide
Nos últimos anos, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram diversas operações para investigar esquemas de pirâmide financeira disfarçados de coaching ou mentorias de investimento. Um exemplo foi a Operação La Casa de Papel (2020), que desarticulou um grupo que movimentava milhões de reais prometendo ganhos irreais por meio de supostas consultorias de trading e coaching financeiro. O grupo usava linguagem motivacional e cursos online para atrair vítimas.
3.2 Ministério Público alerta contra falsas promessas de coaches
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) já emitiu recomendações e alertas sobre cursos e mentorias que prometem enriquecimento rápido. Em 2021, o órgão destacou que muitas dessas práticas configuram publicidade enganosa, crime contra o consumidor e até estelionato.Em 2022, repercutiu na imprensa o caso de um coach que vendia mentorias sob o slogan “ganhe seis dígitos em 30 dias”. Várias vítimas relataram ter pagado valores entre R$ 5 mil e R$ 15 mil sem obter qualquer retorno. Investigações mostraram que o suposto coach sequer tinha experiência prévia em negócios digitais e utilizava depoimentos falsos de “ex-alunos” .
3.3 Coaching financeiro e criptomoedas
O crescimento das criptomoedas abriu espaço para coaches autoproclamados “especialistas em blockchain”. Muitos oferecem cursos caros, com a promessa de multiplicar investimentos em pouco tempo. Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) proibiu atividades de várias empresas e pessoas físicas que ofereciam “mentorias de investimentos” sem autorização.
Essa modalidade de golpe ultrapassa até as redes sociais comuns, tendo estelionatários usado sites de relacionamento para aplicar os golpes, sempre se utilizando de meio ardil, baseado na dor da vítima. em uma casos o estelionatário se utilizou da IA para criar imagem de uma uma mulher para atrair a vítima.
É preciso muito cuidado na hora de decidir onde investir seu dinheiro, quando se trata de investimento, seja ele qual for, mas quando se trata de cripto, a atenção deve ser redobrada.
3.4 Influenciadores digitais e apostas esportivas
Outro setor que vem sendo usado por falsos coaches é o das apostas esportivas. Promessas de lucro certo, “robôs que nunca perdem” e mentorias milagrosas já foram denunciadas por consumidores lesados. O Procon-SP notificou empresas e influenciadores que divulgavam esses conteúdos sem transparência, configurando publicidade enganosa.
O caso da contratação de influencers “celebridade” por cassinos e casa de apostas on-line escancara ainda mais o golpe dos coachs que vendem a promessa que os cursos e publicidades on-line irão alavancar a vida financeira de um indivíduo comum, sem a necessidade de experiência, qualificação, network e diversos requisitos que profissionais bem-sucedidos tiveram que suar muito pra conseguirem alavancar os negócios.
Fonte: https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2025/03/01/homem-toma-golpe-de-r-150-mil-em-relacionamento-on-line-com-mulher-gerada-por-ia-na-china-entenda.ghtml Fonte: https://www.terra.com.br/economia/nao-caia-nessa/neymar-felipe-neto-e-mais-famosos-que-divulgaram-a-blaze-e-nao-foram-citados-pelo-fantastico,fbea092e62f3f230e761f7a15b97e9aeyhyetzxw.html
4. Como o golpe é estruturado
1. Apelo emocional: os anúncios são feitos para atingir pessoas em vulnerabilidade financeira ou emocional.
2. Provas sociais falsas: uso de prints adulterados, depoimentos inventados e até fotos de luxo que não pertencem ao coach.
3. Urgência e escassez: “últimas vagas”, “turma exclusiva”, “só hoje” — gatilhos para acelerar a compra sem reflexão.
4. Transferência de responsabilidade: quando a vítima não tem sucesso, a culpa é colocada nela (“você não aplicou direito o método”), eximindo o coach.
5. Esquema piramidal: em muitos casos, o verdadeiro negócio é recrutar novos alunos, e não gerar resultado para quem comprou.
6. Argumento de Autoridade: Os coachs que enriquecem com tais negócios, geralmente são pessoas que vendem sua imagem, se mostram como heróis, entendedores de qualquer assunto, aparecem em casas e carros de luxo, prometendo para as vítimas que terão o mesmo sucesso.
Conclusão
Você, leitor, que chegou até aqui, deve ter percebido que certas questões parecem óbvias e que o indivíduo que compra o curso ou infoproduto deve ser responsável por suas escolhas na vida, correto? O problema é que não é tão simples assim: pessoas comuns têm sido levadas à bancarrota por serem enganadas, em práticas que configuram crime previsto na legislação penal brasileira. Afinal, é o próprio texto de lei que positiva a configuração do estelionato: “obter vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante fraude (artifício, ardil ou outro meio fraudulento)”.
Por tudo o que foi exposto, a configuração do crime é evidente, principalmente em esquemas de promessas de lucros com criptomoedas e pirâmides financeiras. Tais crimes vêm sendo praticados com frequência, sob os olhos não apenas das autoridades, mas também da sociedade que muitas vezes não percebe quando um fraudador aparece em seu feed de notícias prometendo lucros absurdos em pouco tempo, perda de peso em 21 dias, alta performance nos negócios ou aumento da base de clientes utilizando tráfego pago.
Apesar das facilidades oferecidas pela internet e pela inteligência artificial, o ser humano e as relações humanas ainda não foram substituídos por códigos e algoritmos. Grandes players do mercado financeiro, por exemplo, ainda fazem suas publicidades via imprensa tradicional, o que revela que o mercado digital — onde se promete tudo — tornou-se uma terra de ninguém.
Todos os dias milhares de pessoas ainda saem de suas casas para trabalhar, e negócios continuam sendo fechados em reuniões e jantares, em completo contraponto às promessas de que somente o tráfego pago e a manipulação de algoritmos gerarão sucesso imediato.
A publicidade realizada por meios digitais deve ser vista como um complemento às tarefas diárias, não como um “botão de start” que, ao ser acionado, transformará um negócio da noite para o dia.
Portanto, se você já foi vítima desses golpes ou está pensando em adquirir tais produtos, analise com cautela quem é o coach (ou vendedor) e considere, como alternativa, a contratação de um escritório especializado em crimes dessa natureza, para possível distribuição de Notícia de Crime e Ação Civil ex delicto.
Montalvão Advogados Brazil Lawyers tem observado de perto esse mercado e identificado dezenas de golpistas travestidos de consultores/motivadores/especialistas que sempre aparecem com discurso de sucesso em suas carreiras porém no fim, só querer seu dinheiro e de milhares de pessoas para escalarem seus produtos que geram nenhum tipo de benesse para quem compra seus infindáveis infoprodutos.
ALERTA: Algoritmo nenhum substitui a experiência, tão pouco o estudo e a qualificação por vias convencionais. Não existe milagre ou copia e cola que irá dar certo.
A Montalvão Advogados Brazil Lawyers conta com especialistas em crimes financeiros que podem estar elaborando as maneiras mais eficazes de proteger você e seu patrimônio de golpistas e crápulas.
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Sobre o Autor

Felipe Feliciano Vieira é Bacharel em Direito com mais de 10 anos de experiência paralegal criminal fiscal, é o responsável pela coleta de provas e jurisprudência sobre Direito Penal Tributário nos tribunais superiores para análise e solução dos casos de crimes fiscais pelos Advogados do escritório Montalvão Advogados.
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